Fernando Sabino


A faca de dois gumes


5a Edio


Editora Record




No adianta saber de quem  a culpa, se voc no souber que  sua.
Aldo Tolentino

O bom ladro


Eu sei que tu sabes o que eu nem sei se tu sabes.
Mrio de Andrade


Um




Ultimamente ando de novo intrigado
com o enigma de Capitu. Teria ela trado
mesmo o marido, ou tudo no passou de
imaginao dele, como narrador? Reli mais
uma vez o romance e no cheguei a
nenhuma concluso. Um mistrio que o
autor deixou para a posteridade. O que me
faz pensar no meu prprio caso. Guardadas
as propores  pois no se trata de
nenhuma traio de Isabel  o que foi que
houve realmente entre ns dois? Onde
estaria a verdade?
        Muitos anos se passaram desde
ento. No tornei a me casar, e as mulheres
em minha vida se limitaram a algumas
aventuras de uma noite, em rpidas surtidas
ao Rio, cada vez mais espaadas. Acabei
ficando por aqui mesmo para sempre, nesta 
pequena chcara de Barbacena que meu pai 
deixou de herana, com alguns trocados que 
me permitem ir vegetando como Deus  
servido. Hoje, j entrando em anos, como se 
diz mulher para mim no representa 
problema, e muito menos soluo. O 
isolamento no me pesa. Aprendi a ficar 
sozinho naquela poca j distante de minha 
forada resoluo. A leitura  o meu 
passatempo. Levo horas seguidas 
mergulhado nos livros que costumo 
encomendar de Belo Horizonte. Tenho certa 
predileo pelos romances policiais, mas 
me interesso tambm por assuntos 
literrios. s vezes chego mesmo a pensar 
em dedicar a algum deles um estudo  
especial. Como ao enigma de Capitu , por 
exemplo.
        Com isso, vejo-me de novo a pensar 
em Isabel. To antigas recordaes j 
estariam sepultadas para sempre, no me 
tivesse acontecido a pouco tempo algo 
surpreendente que veio reaviv-las.
        Surpreendente  o prprio rumo que 
a vida vai tomando, alm de qualquer 
previso. Nunca me passou pela cabea 
trocar o interior de Minas pelo litoral. 
Depois que me mudei, a pretexto de um 
curso superior que no cheguei sequer a 
iniciar,  que me pus a estudar as vantagens 
da deciso. Se no pensava em viver no 
Rio, nem trabalhar na redao de um 
pequeno jornal, onde acabei indo parar, at 
ento a idia de casar jamais me havia 
ocorrido. Mas Isabel aconteceu.
        Muita coisa pode Ter me acontecido 
antes e depois, hoje, todavia, se olho para o 
passado, vejo minha vida inteira nos dois 
anos que vivemos juntos. Isabel na frente e 
eu atrs.
        |Por que Isabel na frente e eu atrs?
        Uma tarde  ainda ramos noivos  
entramos numa loja da Rua do Ouvidor. 
Isabel ia fazer compras: esmalte de unhas, 
coisas de toalete. Ela entrou na frente e eu 
atrs. Quando samos  ela na frente e eu 
atrs  uma vendedora veio correndo, 
reteve Isabel pelo brao: 
- Senhorita, um instante. A senhora 
esqueceu uma coisa.
Voltamos, Isabel na frente, eu desta vez no 
meio, e atrs a mocinha, nervosa, excitada. 
Aquela mistura de senhorita com senhora 
me sugeria variaes: ela  senhorita mas 
dentro de alguns dias ser senhora.
O gerente nos esperava junto  
caixa.
- Foi essa  e a vendedora ergueu o 
dedo apontando Isabel: - Tirou
uma caixa de sabonetes e escondeu na 
bolsa.
O sangue me subiu  cabea, de 
vergonha e indignao. Que  que 
aquela moa estava fazendo? Brao 
estendido ela acusava Isabel, que me 
parecia imvel como um manequim da 
prpria loja.
- Que  que essa moa est dizendo? 
 me adiantei: - Quem tirou o 
qu? 
        As outras vendedoras olhavam de 
longe. Alguns fregueses se detinham para 
ver.
- Calma  disse o gerente: -  
melhor no gritar, para evitar 
complicaes. Se sua amiga tirou os 
sabonetes . . . 
- Mas isso  um absurdo! S pode 
ser engano! 
- Se for engano, tanto melhor. 
Vamos olhar a bolsa.
Um pequeno grupo de curiosos se 
formara ao redor de ns. 
Mortificado, 
eu nem sabia mais o que se passava. Sabia 
apenas que o gerente  tinha um bigode fino, 
to fino que se podia contar os fios.
- Tirou sim  repetiu a moa : - Eu 
vi quando ela tirou.
Isabel, impassvel at ento, 
adiantou-se, abrindo a bolsa:
- O senhor est falando estes 
sabonetes  e com a maior naturalidade 
exibiu ao gerente uma caixinha: - A moa j 
no cobrou?
- No cobrei no. Como  que eu 
podia cobrar?
- Podia cobrar junto com as outras 
coisas que eu comprei. Tirei na sua vista. 
Voc no disse que viu ?
O gerente se apressou em encerrar o 
incidente:
- Um engano. No  preciso discutir. 
Um simples engano  e se voltou para a 
vendedora, agora intimidada: - Como  que 
voc me faz uma coisa dessas?
- Da prxima vez, mais cuidado  
falei tambm, alto para que os outros 
ouvissem, tentando me dominar. Tirei do 
bolso a carteira: - Quanto ?
        Paguei os sabonetes e samos. Era 
extraordinrio, mas nem por um instante 
Isabel se deixava perturbar. E agora ia a 
minha frente como se nada houvesse 
acontecido, com toda a segurana, cabea 
erguida, os cabelos sobre os ombros 
cadenciando os passos, o movimento firme 
dos quadris. Era uma nova Isabel, acima do 
comrcio do mundo e da suas leis. Entre o 
dedo que acusa e o sobressalto do corao, 
impunha respeito com a sua simples 
presena e depois saa como havia entrado, 
serena, absoluta, ela na frente, eu atrs. 
Senhorita, senhora, senhorita. Ento percebi 
que ela sempre haveria de ir n frente e eu 
atrs.





        Dois




        Conheci Isabel no jornal. Eu estava 
na minha mesa escrevendo  mquina 
quando ela surgiu diante de mim e 
perguntou onde ficava a seo de anncios. 
Os jornais ainda no haviam se 
transformado em grandes empresas, como 
hoje. Os anncios eram recebidos num 
guinche junto  prpria redao, at s seis 
horas da tarde, quando a janelinha se 
fechava e o funcionrio encarregado 
ganhava a rua, tripudiando sobre os 
redatores que chegavam para o trabalho. E 
j passava de oito da noite.
- Est fechada . Agora s amanh.
        - No posso deixar com voc?
        Observei-a com interesse. Lamentei 
que fosse loura: para algum como eu , 
nascido e criado na provncia, as louras 
pareciam inatingveis. Preferia tambm que 
no ficasse to sria  espera de minha 
resposta, mas que mostrasse ao menos um 
sorriso: 
- Poder, pode. S que no d mais 
para sair amanh.
        Sua mo deslizou como um 
animalzinho sobre os papis na mesa, 
apanho um:
- Posso?
- Ainda no redigiu?
- No. O senhor tem uma caneta?
Desta vez me chamou de senhor. De 
fato, eu devia estar com um ar estpido de 
senhor, olhando-a e ao mesmo tempo 
absorto no trabalho.
- Uma caneta  ela insistiu.
Retirei mecanicamente do bolso a 
caneta, passe a ela e voltei  
mquina. 
Mas as palavras me faltavam: a interrupo 
tinha sido fatal. Ento abandonei o trabalho, 
inclinei para trs da cadeira e fique a 
observar a moa.
        Ela escrevia mordendo o lbio 
inferior e, curvada sobre a mesa, deixava  
mostra com naturalidade o princpio dos 
seios.
- Pronto  falou, me passando o 
papel.
Li rapidamente o anncio, escrito 
numa letra firme e gigantesca. Dizia de um 
quarto para alugar numa casa de famlia em 
Ipanema, a estudante ou senhor s  pedia 
referncias.
Quando ergui a cabea, no a vi 
mais  ela se fora, silenciosa como viera. 
No havia pago o anncio e, pior, esquecera 
de me devolver a caneta. Era uma caneta 
tinteiro, das que se usavam na poca, podia 
no ser das mais valiosas, ,mas tinha pena 
dourada, escrevia macio e no vazava tinta.
        No dia seguinte pedi na publicidade 
que me avisassem quando a moa viesse 
pagar o anncio.
        - Manda para a oficina assim 
mesmo?
- Manda. Ela ainda aparece.
No apareceu. Tive de fazer um vale 
por causa do anncio. Esta foi a razo que 
me fez acordar mais cedo na manh 
seguinte e tomar um nibus a caminho de 
Ipanema, conferindo o endereo j no 
jornal. Ia pelo anncio e pela caneta  mas 
pensava era na moa, nos seus cabelos 
louros.
        A vista do mar me fez bem. A 
beleza da manh me deixava bem-
humorado e feliz. Achei logo a casa  era 
mnima, dessas que mais tarde acabariam 
espremidas entre dois prdios ou engolidas 
de todo por uma incorporao. Reparei no 
jardinzinho  entrada: embora maltratado, 
sempre era um jardim. Enquanto aguardava, 
observei que o edifcio em construo ao 
lado no devassaria a casa nem lhe tiraria a 
luz.
- Bom dia.
Pela porta entreaberta pude apenas 
distinguir um vulto l dentro.
- Este anncio . . .  comecei, 
exibindo o jornal.
- Entre por favor.
Entrei, constrangido, preferia 
liquidar o assunto ali fora mesmo. 
Reconheci a moa do anncio. Naquele 
ambiente, de vestido caseiro e cabelos 
presos, me pareceu menos jovem e atraente. 
- O senhor  o segundo que vem. 
Fica l em cima, vamos subir?
Subi na frente  talvez tenha sido a 
nica vez na vida que passei  frente de 
Isabel. Ela no me tinha reconhecido. Eu 
no via como lhe pedir de volta a caneta, 
reclamar o pagamento do anncio. Seria 
melhor resolver logo, ali na escada. 
Desfazer o equvoco, antes que eu acabasse 
me interessando pelo quarto.
        Foi o que aconteceu, como se podia 
prever: 
-  um quarto espaoso. O senhor 
est vendo  dizia ela: - A moblia no  de 
luxo mas  confortvel.
A cama me pareceu excelente.
- moramos no primeiro andar, 
mame e eu. Este quarto de cima era dela, 
mas infelizmente ela j no est podendo 
muito subir e descer escada.
- Sei . . . 
        Eu olhava automaticamente cada um 
dos detalhes que ela ia apontando. 
Experimentei as molas da cama, 
confirmando  a minha primeira impresso. 
Melhor do que a penso onde eu morava. 
Por que o outro no teria alugado?
- Qual  mesmo o aluguel?
O preo me convinha: pouco mais 
do que eu pagava na penso, valia pelo 
menos o dobro. E ficava em Ipanema, perto 
do mar. Dependia de saber que espcie de 
senhora era a velha.
- A sua me . . .
- Ela agora est repousando. Depois 
o senhor conversa com ela, se estiver 
interessado. Eu apenas estou mostrando o 
quarto.  estudante?
- No, sou senhor s  respondi, em 
linguagem de anncio.
- Agora eu temia que ela se 
lembrasse de mim. Desisti de falar no 
pagamento do anncio e da caneta. A 
perspectiva animadora daquela ligeira 
mudana de vida, sem que houvesse 
pensado nisso antes, j era uma 
compensao.





        Trs




        A mudana no foi ligeira: foi 
completa. Naquela semana mesmo me 
transferi para a nova moradia, e creio que se 
pode compreender  porque pouco tempo 
depois ficava noivo de Isabel, desde que 
incio j admitia estar apaixonado. O 
namoro na sala ameaava passar ao quarto, 
cujo aluguel  eu praticamente nem pagava 
mais. A tolerncia de Dona Brgida, a me, 
fingindo no ver ou realmente no vendo 
nossas carcias , enquanto tricotava um 
canto, era quase uma sugesto para que 
Isabel desse este mau passo, como se dizia 
ento. Facilmente a enganaramos: j estava 
meio surda e mal se agentava consigo 
mesma. Mas a filha no queria : fazia 
questo de se casar primeiro para conter a 
velha.
        No nego que algumas coisas me 
incomodavam em Isabel. Seu hbito de 
fumar, por exemplo, sempre tive certa 
implicncia contra mulheres que fumam: 
quando as beijava, me davam 
desconcertante sensao de estar beijando 
um homem. Mas no havia de ser o cheiro 
de cigarro que apagariam em mim o 
encanto de Isabel. O que me irritava mesmo 
era a sua mania de fumar os meus. E 
somente no nibus, a caminho da redao,  
que eu descobria com raiva que ela havia 
ficado com o mao.
        De volta para casa, porm, j tinha 
comprado outro e esquecido a irritao. 
Tudo que sentia era saudade da sua 
presena. Chegava tarde da noite, 
encontrava a casa s escuras. Era obrigado a 
atravessar silenciosamente a sala e subir 
para o quarto, resistindo  tentao de bater 
 sua porta sob o pretexto de saber se por 
acaso ela ainda estaria acordada.
        s vezes no subia logo. De to 
excitado, fazia algum rudo, tossia alto, 
arrastava uma cadeira, na esperana de ela 
realmente acordasse e abrisse a porta, o que 
infelizmente nunca acontecia. O corao 
disparado, acabava indo para a varandinha 
dos fundos, onde ficava a fumar, olhando os 
edifcios ao redor. Por trs deles, ouvia-se o 
rudo do mar, mais forte durante a noite. O 
vento balanava as roupas dependuradas no 
cordo da varanda. No interior daquela casa 
dormia a mulher que eu amava, aquelas 
paredes a resguardavam de meu desejo. 
Mas eu podia sentir sua presena em cada 
canto, cada objeto. A cadeira de vime em 
que costumava se sentar. A toalha, ainda 
mida, com que se enxugara depois do 
banho. As peas de roupa, que me 
evocavam o seu corpo. Muitas vezes eu 
atirava longe o ltimo cigarro e ia dormir 
quando o cu comeava a clarear.
        Por essa poca, um desagradvel 
incidente  veio um dia perturbar a paz dos 
moradores  daquela casa. 
        Sempre deixei aberta a porta do 
quarto, para que a empregada pudesse 
arrum-lo. Um Domingo antes de sair para 
um passeio com Isabel, precisei de abrir a 
minha mala, apenas parcialmente 
esvaziada: por relaxamento ou incerteza 
quanto ao futuro , ainda guardava ali 
objetos de pouco uso. E dei por falta de um 
par de abotoaduras, lembrana de meu pai 
quando me mudei para o Rio. Dizia t-las 
herdado de meu av. E eram de ouro, 
valiam dinheiro. Eu sempre contara com 
elas para um momento de aperto.
        Fiquei na dvida se falava ou no 
com Isabel. Era evidente que algum havia 
mexido na mala - mas eu no queria 
insinuar falta de cuidado dela ou da me 
para com as minhas coisas. Por outro lado, 
a empregada, que certamente era a culpada 
do furto, continuaria impune. E minhas 
abotoaduras continuariam desaparecidas.
        Acabei lhe perguntando, naquela 
mesma tarde:
- Vocs tm essa empregada a muito 
tempo?
- Mais ou menos. Por qu? 
-  que hoje no encontrei na mala 
as minhas abotoaduras.
- Acha que ela tirou?
- No quero fazer mau juzo. Mas d 
para desconfiar.
- Voc mesmo no pode Ter 
perdido?
- Como? Nunca uso abotoadura!
- Quem sabe procurando bem . . .
- J procurei. O melhor  esquecer 
isso.
- No senhor. Vamos apurar. Seno 
a gente no pode Ter mais sossego em casa, 
sabendo que esto sumindo coisas.
        Essa conversa foi durante nosso 
passeio. Tnhamos ido ao Jardim Botnico, 
em vez de um banco acolhedor  sombra de 
uma grande rvore, como eu havia 
imaginado, fizemos apenas uma rpida e 
inquieta caminhada, e ela pediu que 
voltssemos.
        Em casa, contou o caso  me. 
Depois de muitas consideraes sobre 
honra  com honestidade no se brinca!  
Dona Brgida concordou com a filha: devia 
ser apurado. Ficou resolvido, numa 
atmosfera de segredo, que chamaramos a 
empregada e eu mesmo a interpelaria.
        Concordei, contrariado. No tinha 
muito jeito para essas coisas. Uma vez 
houve um furto no colgio, eu estava entre 
os suspeitos, acabei assumindo a culpa que 
no tinha. E se acabssemos forando a 
empregada a se culpar? No tinha sentido 
perguntar  mulher sem mais nem menos se 
havia furtado uma par de abotoaduras.
        Em vez de interrogar a empregada, 
propus ento deixar a mala aberta e 
observar se alguma coisa mais desaparecia, 
depois que ela arrumasse o quarto. Dona 
Brgida tinha idia melhor: eu esqueceria 
dinheiro no bolso de uma roupa para lavar. 
A idia no me agradava  com dinheiro 
tambm no se brinca - , mas fiz como 
ficou combinado. E o dinheiro foi 
devolvido pela empregada.
        Dei o caso por encerrado e ento 
no se falou mais nas abotoaduras do meu 
av. Pouco tempo depois a empregada foi 
embora por sua vontade. Arranjou-se outra. 
E o que era mistrio continuou mistrio. 
Valeu-me para demonstrar que Isabel me 
queria bem, zelava pelas minhas coisas, 
tinha interesse por mim. Desses interesses 
cuja falta faz de um homem um marido e de 
um marido um marido infeliz.




        Quatro




        Eu ainda no tinha me casado e 
comecei a perceber que circulavam na 
redao certos rumores sobre Isabel. O 
Norberto, da seo de poltica , dizia t-la 
conhecido anos antes. Outro afirmava que a 
irm havia sido sua colega no colgio. 
Outro ainda garantia  tambm que a 
conhecia, foram vizinhos quando ela 
morava no Graja: 
- Voc nem queira saber
- Saber o qu?
- Nada . . .
- Mas se ela nunca morou no 
Graja!  eu alegava, como se a defendesse 
de alguma acusao: - Morou foi em Vila 
Isabel.
- Que at ganhou o nome dela  
pilheriava o Norberto, cheio de segundas 
intenes.
- Quer saber de uma coisa?  me 
falou uma noite o Durval, um poeta que 
costumava aparecer na redao e me 
arrastava para o bar: - Se fosse voc, eu no 
me casava com essa mulher.
Meu primeiro impulso foi reagir 
contra o atrevido, mas me contive:
- Por qu?  limitei-me a 
perguntar, fingindo naturalidade.
- Ah, isso  com voc.
Tentei refletir, no me ocorria 
reflexo alguma.
- Eu tambm no me casaria com a 
sua mulher, e no entanto voc se casou.
- Em vez de se ofender, ele tentou 
um sorriso:
- Quem sabe  por isso que estou lhe 
falando.
Resolvi no admitir que tocassem 
mais no assunto. Mas a perspectiva de me 
casar me assustava: a idia de constituir 
famlia, levar uma vida sujeita a deveres 
conjugais, como j disse, jamais me havia 
passado pela cabea. Talvez fosse melhor 
desistir enquanto era tempo. Tivesse Isabel 
acedido em subir ao meu quarto, estaria 
tudo resolvido. Pensei em esquec-la, 
deix-la em casa com a me. Cheguei a 
pensar em voltar para Minas.
No fiz nada disso e fui mesmo 
forado a antecipar o casamento. Depois do 
sumio das abotoaduras , esvaziei a mala e 
arrumei minhas coisas. Sabia que iria morar 
ali em definitivo. Logo sobreveio a morte 
de Dona Brgida, o que precipitou minha 
deciso, como se eu cumprisse uma espcie 
de vaticnio: mais do que senhoria, havia 
perdido a futura sogra.
Casado, meus temores no se 
confirmaram.  verdade que eu no podia 
mais ficar no bar depois da redao. 
Acabava o trabalho e saa correndo para 
pegar o ltimo nibus. As vezes chegava 
bem tarde, havia o que fazer no jornal: 
minhas atribuies tinham aumentado, para 
que me aumentassem o ordenado. Mas 
Isabel estava sempre  minha espera, 
qualquer que fosse a hora que eu chegasse. 
Fora-se o tempo em que eu ficava a circular 
como um fantasma pela casa s escuras, ou 
a fumar na varanda dos fundos, 
atormentado de desejo noite a dentro, at 
que o sono viesse. Agora dormamos nos 
braos um do outro. E assim fomos vivendo 
 quando dei por mim, completvamos um 
ano de casados. Embora certas reaes de 
minha mulher s vezes me surpreendessem, 
nada faria prever a srie de fatos estranhos 
que acabariam por comprometer as nossas 
relaes.
No aniversrio de casamento, a 
pedido meu, levei-a para jantar em 
Copacabana. O restaurante que ela prpria 
escolheu, bem acima de minhas posses, 
passava por ser dos mais finos da cidade. 
Plidos garons deslizavam entre as mesas 
como peixes no aqurio. O ambiente tinha 
mesmo qualquer coisa de submarino, a luz 
punha sombras esverdeadas no rosto dos 
fregueses, espalhados ao redor do como 
nenfares. O maftre um robalo amvel de 
casaca, no conduziu com reverncias at a 
mesa ao canto e sugeriu com voz mida 
uma lagosta especial.
Ao fim da lagosta, acompanhada de 
competente alicate, cuja utilidade s mais 
tarde descobri, veio a sobremesa, uma 
gelatina trmula que superava em rebeldia 
as habilidades de quem foi criado no 
interior de Minas com melado de car. 
Segui-se o caf, acompanhado de uma 
conta catastrfica.
Apesar de preocupado em 
determinar o montante da gorjeta, pude ver 
como comeou aquilo que viria a estragar a 
nossa noite. Ao olhar Isabel, percebi de 
relance que ela fazia desaparecer dentro da 
bolsa a colherinha de prata do caf. O 
garom estava de costas, mas tive medo de 
que algum ,mais pudesse Ter visto.
- Isabel  sussurrei  O garom vai 
dar por falta.
Ela tentou disfarar, fazendo-se de 
desentendida:
- O qu? 
- O garom  insisti , olhando para 
os lados, preocupado: - no brinque, Isabel. 
Ele acaba descobrindo.
- Descobrindo o qu?
No pude deixar de sorrir. Era 
adorvel aquele ar de menina, na mulher 
segura de si:
- Nada.  s no levar a xcara ou o 
aucareiro.
O tom de sua voz agora era outro:
- Ento no posso levar uma 
recordao do restaurante?
- Esse novo aspecto da questo no 
me tinha ocorrido.
- Pode. Mas acho que  melhor pedir 
primeiro.
Cheguei a pensar se no seria o caso 
de levar ento um cinzeiro, mais apropriado 
como recordao, pois tinha gravado nele o 
nome do lugar. Preferi no contrari-la e me 
dispus a satisfazer o seu capricho:
- Me d aqui.
Olhos baixos, ela me atendeu, 
passando-me a colherinha. Ordenei ao 
garom que chamasse o maftre. Logo o 
robalo se aproximou, luzido, curvou-se com 
solicitude. No fez a menor objeo: disse 
que se sentia honrado em satisfazer a 
vontade da senhorita.
- Senhora  corrigi.
Samos e tomamos um txi. 
Silenciosa, a cabea recostada, Isabel 
olhava a praia. Sua atitude me 
desconcertava. Eu tinha faltado ao trabalho, 
havamos combinado comemorar aquela 
data jantando fora e terminando a noite 
numa boate. Em vez disso, assim que 
deixamos o restaurante, ela pediu que a 
levasse para casa, alegando cansao. 
Enquanto o txi corria, eu a observava 
discretamente. Era evidente que ela se 
aborrecera. Continuava recostada, como 
adormecida, mas de olhos abertos e 
imveis.
- Deixe ver  falou afinal, e estendeu 
a mo sem me olhar.
Tirei do bolso a colherinha e lhe 
entreguei. Ento  ela fez o que eu menos 
esperava: inclinou-se para a frente, baixou o 
vidro e atirou-a longe. A colherinha rolou 
no asfalto, retinindo.
Calado, aceitei passivamente o 
inexplicvel. No ousei trocar com ela uma 
s palavra sobre a nossa noite malograda. 
Continuei respeitando  sua alegao de no 
estar se sentindo bem, que a levou para a 
cama assim que chegamos. Nem me beijou, 
como sempre, antes de se recolher.
De pijama, na sala, eu ruminava o 
meu despeito. Procurava uma explicao 
para o fracasso daquela noite e s 
encontrava esta: a de me Ter adiantado ao 
desejo de Isabel. Podia muito bem fingir 
que no vira e deixar que ela trouxesse para 
casa a colherinha, como recordao. Ao 
ostentar desenvoltura para conseguir as 
coisas, eu no percebia que assim eliminava 
a razo que as fazia desejadas. Envaidecido 
com a considerao do maftre, que a conta 
apresentada to bem justificava, ali estava o 
que eu havia conseguido: que ela atirasse 
fora a colherinha e agora fosse dormir, me 
deixando na sala com a minha frustrao. 
Ao fim de algum tempo, cheguei  
primeira concluso sensata: no se deve 
negar  mulher o prazer de furtar uma 
colherinha.




        Cinco




        Isabel me desconcertava cada vez 
mais. Sua admirao pelo Garcia, por 
exemplo, era coisa que eu no conseguia 
compreender.
        Esse Garcia era um parente de Dona 
Brgida que foi nosso hspede durante 
alguns dias. Isabel o punha nas nuvens. Eu 
discordava:
- A mim no parece no passar de 
um perfeito idiota.
- No fale assim. Ele  primo da 
mame.
Era um homem de seus quarenta 
anos, bem apessoado, olhos claros, bigode 
grisalho e voz macia. De que vivia? De 
negcios  informava, evasivo, quando 
interpelado. Que espcie de negcios, 
nunca cheguei a saber. Nos o acolhemos 
enquanto aguardava lugar num hotel, 
segundo dizia. Mas o primo de Dona 
Brgida no interpretava bem nossa 
hospitalidade:
- Sinto-me aqui como se estivesse  
na minha casa. Por mim, no sairia mais.
Isabel ria, como se tudo que ele 
dizia fosse irresistivelmente engraado. 
Aquilo me irritava.
- Voc no o conhece  ela se 
defendia: - No imagina de que ele  capaz.
Eu imaginava.
O nosso hspede se dava ao jogo de 
cartas, truques de mgica e pequenas 
distraes. Em vez de me distrair, suas 
habilidades me aborreciam, eu acabava indo 
mais cedo para o jornal. Mas na 
prestidigitao, tinha de reconhecer que ele 
era excelente. Fazia desaparecer tudo que 
lhe caa nas mos. E o objeto vinha parar no 
meu bolso, sem que eu pudesse entender 
como. Assim aconteceu com um ovo, por 
exemplo, que, na pressa em retirar, acabei 
espatifando dentro do palet. 
- Muito obrigado  resmunguei, 
Isabel s gargalhadas.
- Aprendi esta com um mgico na 
Espanha.
E passava a contar casos da guerra 
civil:
- Uma vez tive oportunidade de 
atirar no prprio Franco. No sei o que foi 
que me deu que acabei no atirando. Na 
certa eu tambm teria morrido.
- Voc lutou a Espanha?  e Isabel o 
olhava, fascinada: - Dessa eu no sabia.
- Que remdio? Estava l na 
ocasio. A maneira mais fcil de fugir foi 
entrar na luta.
Era a modstia em pessoa. Mais 
tarde Isabel comentaria:
- O que me encanta nele  a 
simplicidade. Viu como contou que lutou 
na Espanha?
- Vi.
- Sabia que ele foi condecorado l?
- Sabia.
- E que ele j esteve at na china?
- Sabia.
- Voc no acha formidvel ele j 
Ter feito tanta coisa?
Eu achava estourando:
- Fez coisa nenhuma: nem aqui nem 
na china. Sou capaz de apostar que esse 
palhao nunca ps os ps fora do Brasil. 
Cabotino de primeira.  o que ele .
- J disse que no gosto que voc 
fale dele assim.
E nos indispnhamos por causa do 
heri.
A ltima das nossas desavenas o 
ps para fora de casa. No foi por causa de 
sua luta na Espanha, nem pelo fato de estar 
usando minhas camisas, ou pelo hbito de 
encomendar no armazm vinhos caros que 
eu tinha de pagar. A causa foi sua qualidade 
de prestidigitador, que tanto entusiasmava 
Isabel.
- Uma noite, voltando mais cedo do 
jornal, encontrei os dois sentados no sof, o 
que de vez em quando acontecia, e que de 
sada j me irritava. Mas aconteceu que 
naquela vez percebi que trocavam olhares 
misteriosos ante minha chegada. Se no 
fosse a vontade de rir que Isabel mal 
continha, certamente minha desconfiana 
teria sido mais grave. Parecia que estavam 
rindo de mim  e mais tarde verifiquei que 
de fato estavam.
Quando me viu, Garcia se levantou 
e veio me dar um abrao sem qualquer 
propsito:
- Como ? Que h de novo?
De novo era aquela efuso, diante da 
frieza com que eu o tratava. Desvencilhei-
me de seu abrao. Devia ser alguma de suas 
brincadeiras, que haviam se tornado 
freqentes entre os dois. Voltou logo a 
sentar-se. Notei de relance o olhar 
conivente que dirigiu a Isabel, cujo sentido 
s mais tarde, no quarto, acabei 
compreendendo: minha carteira tinha 
sumido do bolso do palet.
Voltei  sala, pouco propenso a 
achar graa:
- Onde est a carteira?
Os dois se entreolharam, 
espantados:
- Que carteira?
A idia de estar passando por idiota 
me exasperava:
- Brincadeira tem hora. Vamos, a 
minha carteira. Isabel se ergueu, veio at 
mim:
- Voc  que no estar brincando? 
No sei de carteira nenhuma.
- Eu muito menos  secundou 
Garcia.
Por um instante temi haver perdido a 
carteira na rua. Mas era evidente que no: 
pois se percebera todo o jogo!
- Vamos. No estou gostando disso. 
Posso me aborrecer. Com dinheiro no se 
brinca.
Eles insistiam em passar por 
inocentes. A cumplicidade de Isabel me 
indignava:
- Bem, vocs tm de acabar 
entregando mesmo.
Voltei para o quarto. Esperava que 
minha indiferena lhes tirasse a graa. Mas 
a veemncia de Isabel ao pedir explicaes, 
enquanto eu me afastava sem lhe dar 
ouvidos, quase me pareceu sincera. Pouco 
depois ouvi que ela me chamava. Fui at a 
escada, ela gritou l de baixo:
- Olha aqui sua carteira, venha ver 
s onde estava!
Desci, e encontrei Isabel apontando 
para o cho, perto da porta. Garcia se 
limitava a me olhar, compenetrado. A 
carteira estava ali, cada junto  entrada.
- Com certeza foi quando voc tirou 
a capa.
De fato eu chegara da rua com capa, 
embora j no estivesse chovendo. Sim 
podia ser. Mas e o abrao. Os olhares e tudo 
mais? No me enganavam assim to 
facilmente. Apanhei a carteira, conferi o 
dinheiro.
- Tudo bem, s que esto faltando 
mil cruzeiros.
Agora a brincadeira excedia a todos 
os limites. Mil cruzeiros era dinheiro 
naquele tempo. Levei Isabel para o quarto 
em dar maior ateno ao Garcia:
- Fale com esse pndego para 
devolver o meu dinheiro.
- Voc ficou maluco? Juro que no 
houve nada do que est pensando.
- Como no houve? E o dinheiro?
- Voc perdeu, ou algum mais 
tirou.  lgico que no amos fazer uma 
brincadeira dessas.
- Se no iam, e aqueles olhares?
- Que olhares?
- Ora Isabel, voc est pensando que 
sou imbecil? Ento no reparei que vocs 
estavam com cara de riso quando cheguei?
Pelo seu ar magoado, via-se que eu 
cometia uma das minhas injustias. Com 
voz ressentida, ela explicou:
- Ramos porque apostamos que 
voc ia chegar, parar na porta, tirar a capa e 
perguntar: Demorei muito, meu bem? Foi 
exatamente o que voc fez. E depois veio 
com essa histria de carteira.
Tudo muito bem explicado, menos a 
falta do dinheiro. Eu no me conformava:
- E os mil cruzeiros?
- Vai ver que voc mesmo gastou 
por a e nem se lembra.
Como se isso fosse possvel: eu 
mesmo gastar e no me lembrar. Pelo sim, 
pelo no, resolvi no admitir mais o primo 
de Dona Brgida na nossa casa. No dia 
seguinte comuniquei a Isabel esta 
resoluo. Para minha surpresa, ela no fez 
nenhuma objeo, concordou em silncio. 
Que desculpa deu ao Garcia, no fiz a 
menor questo de saber. O certo  que ele 
se foi, sem sequer se despedir de mim.




        Seis




        A partir de ento Isabel deu para sair 
quase todos os dias. Eu achava natural que 
ela, durante a minha ausncia, sozinha o dia 
todo, procurasse compensar num cinema ou 
num passeio a distrao que o primo de 
Dona Brgida j no lhe proporcionava. 
No tinha amigas, nem mesmo mantinha 
relaes com alguma companheira do 
tempo de colgio em Vila Isabel  ou no 
Graja, eu no sabia mais.
        Ainda assim, foi com surpresa que a 
encontrei aquela tarde numa livraria da 
cidade. Ao que me constava, ela no tinha o 
hbito de ler. Eu  que de raro em raro, 
passava pelas livrarias para ver as 
novidades, e isso era tudo que restava  de 
uma ligeira veleidade literria da juventude. 
Naquele dia eu fora para a cidade mais 
cedo, e estava fazendo hora na rua at o 
momento de ir para o jornal.
        Quando me aproximei, vi que ela 
ocultava um livro sob o casaco 
dependurado no brao, enquanto fingia 
olhar a estante. Dando comigo a seu lado, 
assustou-se:
- Como  que voc sabia que eu 
estava aqui?
- No sabia. Entrei por acaso.
Ela havia recuperado a calma:
- Podemos voltar juntos.
No cheguei a responder: um 
vendedor se aproximava para me atender, 
eu temia que ele tambm tivesse visto.
- s suas ordens.
Aflito, procurei esconder Isabel de 
seus olhos, distra-lo:
- Um livro . . . No me lembro do 
nome. Um autor francs
S pensava em desviar a ateno do 
homem, para que Isabel se desvencilhasse 
do livro:
- Um . . . um dicionrio.
- Francs?
- Isso mesmo. Francs.
- Temos Petit Larousse.
-  o que eu tenho, digo,  o que eu 
procuro.
O vendedor foi buscar o dicionrio. 
Voltei-me discretamente para Isabel:
- Aproveite agora  sussurrei: - 
Largue o livro, que ele j viu.
- Que livro?
Ora meu Deus, que livro! O homem 
j voltava:
-  o ltimo exemplar  e me exibiu 
o dicionrio, comeando a embrulh-lo. Ele 
fora mais esperto, eu no tinha como evitar 
a compra:
- Quanto ?
Engoli em seco quando ele me disse 
o preo. Pagar um dinheiro por uma obra 
que eu j tinha em casa, jamais consultada. 
Pensei ainda na possibilidade de troc-la 
por outra, j que ia comprar mesmo, mas 
era tarde: o vendedor me estendia o 
embrulho. Paguei e tomei Isabel pelo brao:
- Vamos embora.
Ela tivera tempo suficiente para se 
desfazer do livro. Somente depois de no 
afastarmos da livraria reparei que o trazia 
ainda sob o casaco, na mesma posio.
- Deixe ver esse livro  falei apenas.
Ela me olhou espantada com o tom 
incisivo de minha voz.
- Esse livro debaixo do seu brao  
insisti.
Isabel me estendeu o livro com 
naturalidade. Ao ler o ttulo, estaquei, 
surpreendido: logo O primo Baslio, ela 
que no se interessava por literatura?
- Presente de aniversrio para um 
parente meu  explicou, como se 
considerasse a coisa mais natural do mundo 
levar um livro sem pagar, desde que fosse 
presente de aniversrio para um parente.
- No me diga que  para seu primo 
Garcia.
Ela no percebeu a ironia:
- No, mas  quase.  para um 
estudante de letras, afilhado de mame. E 
que vem a ser sobrinho de Garcia.
- O fato de ser estudante de letras, 
afilhado de sua me e sobrinho de Garcia, 
no justifica o que voc fazer o que voc 
fez.
- Fazer o qu? Comprar um presente 
para ele?
- Voc comprou esse livro?
- No: furtei  respondeu ela, irnica 
por sua vez  voc tambm no comprou 
um?
- Comprei e paguei.
- Eu tambm, ora essa.
Pelo que entendi, ela queria dizer 
que j tinha pago o livro quando cheguei  
livraria. Presente de aniversrio  nem ao 
menos mandara que embrulhassem ! No 
me parecia convincente, mas deixei passar. 
S no conseguia engolir o tal estudante:
- Que  ele afinal?
- J disse: afilhado de mame, voc 
no conhece.  moo ainda, quase um 
menino.
- No deve ser to menino assim, 
para ler Ea de Queiroz. Ainda mais esse 
romance.
- Est com cime?  e ela sorriu, 
faceira, deslizando o dedo pelo meu rosto.
Havamos chegado ao ponto do 
nibus. Disse-lhe que no seguiria com ela: 
iria direto para o jornal, pretendia voltar 
mais cedo para casa. E nos despedimos com 
um rpido beijo.
Naquela noite Isabel, carinhosa, 
parecia agradecida por um favos especial 
que eu lhe tivesse prestado. Aceitava e 
retribua plenamente o meu amor. Um 
grande amor.




        Sete




        Eu j no tinha mais dvida de que 
Isabel sentia certa atrao por situaes 
ambguas, arriscando-se a perigosos mal-
entendidos. O prprio risco certamente a 
excitava. Do contrrio, como explicar 
tantos equvocos?
        Lembrava-me dos sabonetes na loja 
da Rua do Ouvidor, quando ainda ramos 
noivos. E no foi s naquela ocasio: outras 
se sucederam. Eu vivia apreensivo, com o 
hbito que Isabel tinha de ir recolhendo nas 
lojas as coisas sem pagar. O curioso  que 
em geral se tratava de objetos de pequeno 
valor, no compensavam o perigo a que ela 
se expunha. s vezes usava dos recursos 
bem engendrados, eu tinha de reconhecer. 
Um dia ps no braos uma pulseira, aos 
olhos do vendedor, para ver se lhe 
assentava bem, e tanto conversou e distraiu, 
que acabou levando-a consigo, e o homem 
nem se deu conta. Em casa toquei no 
assunto, como se achasse perfeitamente 
natural o que ela fizera. Para minha 
surpresa, explicou que tinha sido distrao 
sua  e queria por fora voltar para devolver 
a pulseira, eu  que no deixei. Ela se 
aborreceu.
        Resolvi dali por diante no tomar 
conhecimento do que se passava. 
Imperturbvel, eu fingia no ver. 
Imperturbvel com relao a ela, bem 
entendido, com relao a uma possvel 
testemunha, a insegurana me dava 
calafrios. Se parvamos numa banca de 
jornais, eu voltava as costas para no ver 
Isabel folheando distrada uma revista e sair 
com ela debaixo do brao. Se entrvamos 
numa loja, eu olhava cautelosamente ao 
redor, cmplice atento, a ver se algum nos 
observava. Isabel sabia que eu sabia. Ela 
pagava com carcias o meu silncio.
        O que mais me admirava era a sua 
presena de esprito. Eu me sentia no 
extremo oposto: intimidado, constrangido, 
ansioso. Sua audcia me assombrava. Era 
v-la em alguma festa ou reunio, a olhar 
fixamente um objeto, e comeava o meu 
sobressalto. Ao mesmo tempo, passava a 
observ-la discretamente, descobria uma 
sensualidade insuspeitada na sua postura 
animal  espreita. Os gestos eram lentos e 
cautelosos, a respirao se tornava mais 
intensa. O objeto que seus dedos tocassem 
ganhava ento uma fluidez que o tornava 
submisso, como se a matria houvesse se 
escravizado  sua mo. Os olhos brilhavam 
 s vezes eu tinha a impresso de que ela 
bebia mais depressa para poder levar o 
copo.
        Era um espetculo que eu apenas 
presenciava, fascinado. Mas o meu 
alheamento aos poucos foi deixando de 
representar para ela uma silenciosa 
conivncia, j no parecia me engrandecer 
aos seus olhos. A sensao era de que ela 
comeava a me desprezar por causa disso. 
Ainda assim, eu no tinha coragem de falar 
nada.
        De tanto silncio, passamos a 
silenciar sobre outras coisas, nossa relao 
foi ficando diferente. J no tnhamos 
aqueles momentos de tranqila  
convivncia,  noite, quando eu voltava 
mais cedo do jornal e nos sentvamos de 
mos dadas na varanda dos fundos, para pr 
em dia nossa vida, escutando o rudo do 
mar. As nossas noites agora eram 
montonas e feitas de tdio. Eu j no vinha 
cedo para casa. Ficava no bar com algum 
conhecido, ou mesmo sozinho, porque 
Isabel deixara de me esperar. No raro 
acabava dormindo no quarto de baixo para 
no incomod-la. Almovamos em horas 
diferentes. Distante ia o nosso tempo de 
noivado, em que ela vinha me tirar da cama 
para o almoo, aos beijos, longe dos olhos 
da me. Tudo considerado aquele tempo 
fora mesmo o mais feliz.
        Lembrava-me das insinuaes dos 
colegas de jornal contra o meu casamento, 
das palavras do Durval uma noite no bar: eu 
se fosse voc no me casava com essa 
mulher. Por que dissera aquilo? Acaso a 
conhecera antes, ou outra mulher assim? O 
tempo havia passado, Durval sumira por a 
com os seus ressentimentos, e eu 
continuava assistindo  eroso da minha 
vida, sem que pudesse fazer nada. Muitos 
menos compreender Isabel. 
        At que um dia resolvi imit-la.




        Oito




        Entrei na livraria aparentando 
naturalidade. Uma vaga sensao de prazer 
nascida do prprio medo. Tinha a um tempo 
a conscincia do perigo que ia correr e a 
certeza da minha superioridade: eu sabia 
tudo e eles no sabiam de nada. Eu 
comandava. Aquele prazer que, no meu 
tempo de menino, me fazia optar pelo papel 
do bandido e no do detetive. 
        Examinei com cuidado a situao. O 
vendedor mais prximo atendia um fregus. 
Ao fundo, outro vendedor descia a escada 
encostada  estante, carregando uma pilha 
de livros. Por capricho, procurei nas 
prateleiras um exemplar de O primo 
Baslio. No encontrei. Por que no 
Madame Bovary, logo de uma vez? 
Acabei me decidindo pela prata da casa: 
uma edio de luxo de Dom Casmurro.
        Lentos, meus dedos tocaram o 
volume e o retiraram com cuidado da 
prateleira. Um vendedor, a meu lado 
procurava um livro na estante. Pus-me a 
folhear o meu, atento aos menores 
movimentos do homem. Ele se afastou sem 
me olhar.
        A Segunda parte do meu plano foi 
executada numa oportunidade que eu no 
havia previsto: o vendedor na escada deixou 
cair com estrpito alguns volumes que 
carregava. Todos os olhares convergiram 
para ele durante um segundo  segundo de 
que me aproveitei para enfiar o livro entre 
as folhas do jornal que trazia debaixo do 
brao. Apanhei outro na estante e comecei a 
examin-lo.
        Talvez fosse o caso de comprar esse 
outro, para disfarar. Era Crime e Castigo 
 que, alis, eu j havia lido. Dostoievski 
viria a calhar. Mas vi logo que no seria a 
mesma coisa: no estaria levando um livro 
sem pagar, mas simplesmente pagando 
menos por dois.
        Olhei para a porta. Plantado na 
entrada da livraria de costas para mim, um 
vendedor observava a rua. Se eu passasse 
por ele, nem me viria.
- Deseja algum livro?
Estava descoberto! Foi com esforo 
que respondi:
- No, olhando apenas.
Recoloquei com naturalidade na 
estante o livro que tinha nas mos. E o 
outro escondido. Na certa aquele vendedor 
havia desconfiado. Ficou parado a poucos 
passos me olhando. Eu me sentia como se 
estivesse sendo vigiado. Era melhor largar o 
livro em qualquer parte e ir-me embora, 
nunca mais voltar ali. Como tir-lo de 
dentro do jornal?
Convencido de j fora visto, eu no 
entendia por que no me apanhavam de 
uma vez. Talvez esperassem que eu fizesse 
meno de sair, para me pegarem com a 
boca na botija. Sentia que eles sabiam de 
tudo, eu  que j No sabia de nada. Apenas 
aguardavam o momento  invertiam-se os 
papeis, eu descobria estarrecido que h um 
momento que se invertem os papeis. At o 
jornal debaixo do brao passara a me 
denunciar. Apanhado na armadilha que eu 
mesmo havia montado, eu olhava ao redor, 
incapaz de qualquer ao.
Aos poucos fui me acalmando. 
Ningum me descobrira, que bobagem era 
aquela, sem mais nem menos? Ali dentro eu 
era um fregus como outro qualquer.
Arrisquei alguns passos em direo 
 sada. Dois vendedores conversavam, 
obstruindo a passagem. Voltar  que eu no 
podia, ia causar estranheza. Agora tinha de 
continuar. Minha tentao era deixar o livro 
sobre o balco, com jornal e tudo, e sair de 
uma vez daquele lugar. Vi que os dois 
vendedores se afastavam do meu caminho. 
Decidi acabar logo com aquilo: Agora ou 
nunca! Apertei o jornal com o brao e 
avancei firme para a porta. Algum me 
interpelou:
- Quer que embrulhe?
- Uma voz delicada , mas segura. 
Pensei ainda em fingir que no ouvira, no 
era comigo. Em pnico, tive de me conter 
para no fugir, largando livro e jornal pelo 
caminho.
- No, obrigado. Quanto ?
Minha voz saiu rouca, do fundo da 
garganta. S fui entender o que havia 
acontecido conferia atrapalhadamente e o 
troco: o jornal no ocultava de todo o livro, 
o vendedor com certeza viu e por isso 
cobrou. S no dava para saber se percebera 
a minha inteno, ou se me tomara por 
distrado. Talvez a seus olhos eu no 
passasse realmente de um fregus que no 
queria que embrulhassem.
Sa para a rua derrotado. Cada 
transeunte parecia uma testemunha do meu 
vexame. Carregava com humilhao o livro 
involuntariamente adquirido. Ainda bem 
que tivera dinheiro suficiente para pagar. 
Um livro de luxo! Num repente de raiva, 
me deu vontade de larg-lo na sarjeta, atir-
lo fora. Mas resolvi reler o romance de 
Machado de Assis,  falta de coisa melhor.
Vem dessa data meu interesse pelo 
enigma de Capitu.




        Nove




        Em casa, no contei nada a Isabel. 
Mas uma espcie de intuio a fez 
perguntar assim que me viu, embora 
ultimamente mal conversvamos:
        - Voc comprou esse livro?
- No furtei. Voc se lembra do que 
comprou para o tal estudante?
Pela primeira vez eu fazia uma 
aluso direta  no sei se ela entendeu. 
Isabel j no me entendia, nem eu a ela: era 
um mistrio para mim. Eu no sabia se ela 
havia mudado, ou se eu  que ia me 
tornando outro homem.
At ali, a conscincia de minha 
inferioridade me fazia sofrer. Depois desse 
caso da livraria, a humilhao do fracasso 
foi cedendo lugar a um sentimento de 
satisfao: se fracassei, desta vez fui eu que 
agi. Bem ou mal, eu me colocava em plano 
de igualdade em relao a Isabel: ela 
tambm no falhava algumas vezes?
Neste ponto tudo se mistura, no d 
para distinguir a verdade entre o que 
acontecia e o que a imaginao recriava. O 
certo  que nossa intimidade no se 
restabelecia mais. A prpria intimidade nos 
trouxera talvez quela progressiva 
indiferena. Continuvamos a sair juntos, 
no fugamos um do outro. Mas naquele 
companheirismo displicente, ramos apenas 
a aceitao resignada da vida em comum. 
Isabel j nem manifestava ressentimento 
durante o dia, ou interesse por mim durante 
a noite. Eu ia tornando cada vez mais 
freqente o hbito de no subir para o 
quarto, quando voltava do jornal dormia no 
debaixo mesmo. s vezes pensava at em 
procurar outra mulher.
Uma noite, voltei para casa mais 
cedo, decidido a Ter com ela uma 
explicao. Cheguei pouco antes de meia-
noite. Subi direto ao quarto, achei que 
Isabel j estivesse dormindo  acendi a luz, 
disposto a acord-la. A cama estava vazia.
A primeira idia que me ocorreu  
ela me  abandonara  no se confirmou: no 
havia levado suas roupas. Tudo estava nos 
lugares de sempre. Irritado, percorri a casa, 
acendendo luzes, chamando por ela. No 
tinha a mnima idia de onde poderia Ter 
ido quela hora. Alm do mais chovia, uma 
chuva mida, que viera respingando no meu 
rosto pela janela do nibus.
Quem sabe teria recebido um 
chamado urgente? Qualquer motivo 
importante a fizera sair de casa. Mas se 
assim fosse, deixaria um bilhete, uma nota 
explicando.
Procurei esse bilhete com ansiedade. 
Fui ao telefone, onde ela poderia Ter 
deixado, no encontrei. Por que no me 
telefonou avisando que ia sair? Dei busca 
na sala de jantar, na cozinha, remexi 
gavetas, desarvorado, j sem saber o que 
procurava. Olhei no banheiro, pensando 
encontr-la desmaiada atrs da cortina do 
chuveiro. Voltei ao quarto, fique tentando 
adivinhar, diante do guarda-roupa, que 
vestido ela estaria usando. Como isso de 
nada adiantasse , passei a desenvolver 
minhas conjecturas. Escolhia com raiva as 
palavras com que a interpelaria, quando ela 
voltasse.
Se ela voltasse.
No tinha dvida de que voltaria. 
Por que no haveria de voltar? Com certeza 
fora fazer alguma visita e se atrasara. 
Talvez mesmo alguma festa de aniversrio, 
de que eu havia me esquecido.
Tudo seria razovel se Isabel tivesse 
o costume de fazer visitas. No tinha: 
jamais saa  noite sem mim, no era amiga 
ntima de ningum, no ia a festas, seno 
raramente, e sempre comigo. Pelo menos 
que eu soubesse.
S ento pensei que aquela ausncia 
poderia Ter ocorrido antes, noutras vezes 
em que no subi ao voltar da rua. Quem me 
assegurava que Isabel sempre estivesse l 
no quarto? Como poderia afirmar, vendo-a 
pela manh, que ela havia passado a noite 
em casa?
Era preciso decidir qual seria a 
minha atitude, quando Isabel chegasse. Eu 
podia sair de novo  mas, com isso, estaria 
fugindo do confronto. Achei que melhor 
seria fingir que dormia, deixar para o dia 
seguinte. Mas assim eu acabaria no 
falando nada. Ento preferi no falar 
mesmo  esperar que ela falasse primeiro. 
Faria de conta que eu no sabia nada. Se ela 
no falasse ento . . .
Temendo agora que ela chegasse de 
uma hora para outra, fui me refugiar no 
quarto de baixo.




        Dez




        No pude dormir. Entre o sono e a 
viglia, ouvia o rudo da chuva contra a 
vidraa e o relgio da sala marcando os 
minutos. Revolvia-me na cama, olhos 
abertos, o armrio se destacando na sombra. 
O escuro do quarto me sufocava.
        Ao fim de uma eternidade, ouvi a 
porta da rua se abrindo e os passos de Isabel 
cruzando a sala, subindo os degraus da 
escada, cautelosos. Meu mpeto era pular da 
cama e ir l fora, agarr-la pelos ombros, 
perguntar por onde  que ela estava at 
aquela hora. Ao mesmo tempo sentia 
vontade de abra-la, agradecendo por Ter 
voltado. Tive de me conter, para no 
denunciar minha presena.
        Depois de uma noite insone, o dia j 
entrando pela janela, acabei caindo no sono 
agitado de pesadelos. Ao acordar, no tive 
coragem de sair da cama: senti-me 
intimidado por Ter de enfrentar Isabel, 
como se eu  que lhe devesse explicaes. 
Demorei tanto a me levantar, que ela 
acabou vindo-me chamar para o almoo. 
Fingi que dormia, o que me valeu mais uma 
surpresa: Isabel se inclinou sobre mim e 
beijou-me o rosto, para me acordar. Olhos 
fechados, tive por um instante a impresso 
de que voltava ao tempo do nosso noivado. 
Ela me sacudiu pelo ombro:
- Acorda, seu preguioso.
Sentei-me, sem coragem de encar-
la:
- Que horas so?
- Adivinhe.
- No tenho a menor idia.
- Uma hora.
- No  possvel.
Pulei da cama fingindo grande 
urgncia: inventei que tinha um encontro na 
cidade s duas horas.
- Como o de ontem?
- Que  que houve ontem?
Absorvido em me vestir, eu 
procurava encobrir a minha perturbao. 
Era como se a culpa fosse toda minha.
- Ontem voc me fez uma das suas, 
s isso.
Queria ver a desculpa que ela iria 
dar:
- Que  que eu fiz?
- No ficamos de nos encontrar no 
jornal depois do concerto para voltarmos 
juntos?
- Que concerto?
- Ora que concerto.
Ela foi cuidar do almoo, sem mais 
explicaes, como se o assunto no 
merecesse maior ateno. Deixei-me ficar, 
tentando descobrir na cabea a lembrana 
de algum concerto.
J vestido, sentei-me  mesa. Isabel 
estava na poltrona da sala, de costas para 
mim, lendo uma revista. Como de costume 
j havia almoado.
- Voc ontem foi a algum concerto? 
 arrisquei.
- Vi logo que voc ia esquecer  
respondeu ela num tom resignado: - No 
prestou a menor ateno quando 
combinamos. Voc mesmo me disse para ir 
sozinha, que detestava concertos. Passei na 
redao com aquela chuva toda.
Eu tambm, debaixo de uma 
marquise, tinha esperado a chuva melhorar. 
Mas no me lembrava de nenhum concerto.
- No me lembro de nenhum 
concerto.
Absorta na revista , Isabel no deu 
mostra de haver escutado.
Fui para a cidade, intrigado com 
alguns pormenores que me pareciam pouco 
claros. Se no me encontrou no jornal, por 
que, ao chegar, no verificou se eu j estava 
em casa? Sentia-se acaso impedida de me 
acordar, como acontecia comigo quando 
ramos noivos e ela que dormia embaixo? 
Ou contara com a sorte, esperando que sua 
ausncia passasse despercebida?
Decidi no pensar mais no caso, j 
que no chegaria mesmo a concluso 
alguma. Por outro lado, no seria novidade 
eu me esquecer de alguma coisa combinada 
com Isabel. Pelo menos era disso que ela 
sempre me acusava. A no ser que estivesse 
agora tirando proveito  de minha falta de 
ateno.
No fiquei tranqilo. Tive de ir a 
uma entrevista coletiva em substituio a 
um colega, e verifiquei, de volta  redao, 
que no conseguia decifrar as notas que 
havia tomado. Na minha cabea as questes 
se misturavam. Ministro, o senhor pode 
dizer qual  o montante do papel-moeda em 
circulao? Chegou de madrugada e desse 
que foi a um concerto. Que concerto 
costuma terminar s duas da manh? O que 
acabaria provocando um srio desequilbrio 
oramentrio.
Se Isabel tinha vindo me procurar no 
jornal, algum deveria saber. Perguntei ao 
contnuo pelo Nilo, chefe da redao.
- Embarcou para Minas. Foi cobrir a 
visita do Presidente 
O Presidente da Repblica era, 
assim, o responsvel pela minha incerteza, 
pelas suspeitas que eu no queria me 
formular. Olhava o papel em branco na 
mquina, pesando no tal concerto. Poderia 
apurar se tinha havido mesmo esse 
concerto. O Moura Jnior, da seo de 
esportes, olhar cnico, me observava de sua 
mesa. Farejava alguma coisa no ar:
- Que  que voc quer com o Nilo?
- Saber se minha mulher no esteve 
aqui ontem  noite.
- Por que voc no pergunta a ela . . 
.
- E por que voc no vai  . . .
Daqui em diante, a discrio das 
reticncias. No saberia descrever o que j 
me ocorria em suspeitas na imaginao  
solta. Isabel j no me amava . . .









        Onze




        No fiquei no jornal. Terminei a 
entrevista do Ministro e, aproveitando a 
ausncia do chefe de redao, voltei logo 
para casa. Precisava tirar a limpo aquela 
histria, ver se Isabel teria ido a outro 
concerto naquela noite.
        Estava to certo de no a encontrar, 
que foi com alguma decepo que dei com 
ela na sala, sozinha, entretida com a mesma 
revista que lia quando sa.
- Voc chegou cedo hoje  
comentou.
Tive pena dela, ali sozinha, sem 
ningum com quem conversar, toda noite 
metida em casa. Senti vergonha de minhas 
suspeitas. Censurei-me por deix-la to 
abandonada, nunca sugerir um passeio, 
como antigamente. E ainda por cima dizer 
que fosse sozinha, eu detestava concertos. 
No podia exigir que ela ficasse acordada 
at de madrugada  minha espera. Nem ao 
menos lhe trazia umas revistas de vez em 
quando, para que no tivesse de reler a 
mesma o dia todo  e uma que eu havia 
trazido do barbeiro. Era lgico que a minha 
falta de ateno  que vinha criando aquele 
constrangimento entre ns dois. Lgico que 
ela me amava  bastava v-la como agora, 
recostada no sof, revista aberta no colo, a 
falar voc chegou cedo hoje. . . Ser feliz 
no era to difcil.
- Vamos sair um pouco? Propus.
Ela ficou indecisa.
- Deixe de preguia  insisti, 
puxando-a pelas mos.  H tanto tempo 
no samos juntos.
Finalmente ela concordou e fomos 
nos sentar no bar da praia que antes 
costumvamos freqentar. Deixei-me 
contaminar pela euforia do lugar, alegre e 
movimentado naquela noite de vero:
- Lembra o primeiro dia que viemos 
aqui?
        Mas estava escrito que aquela noite 
no seria inteiramente nossa, como eu 
planejava. Mal tnhamos tomado o primeiro 
chope, um casal conhecido veio sentar-se  
nossa mesa. Ele era um jovem advogado 
que se dava a estudos sociais e ela uma 
sergipana com pretenses a jornalista, coisa 
que na poca um tanto raro para uma 
mulher. Nossas relaes advinham de um 
nico encontro ali mesmo no bar, algum 
temo atrs, quando fomos apresentados por 
um conhecido comum.
        A conversa j ia pontuada por 
longos silncios, quando cometi a asneira 
de perguntar pelo filho do casal. A 
sergipana estava grvida quando a vimos. 
Quis mostrar simpatia e me dei mal:
        - Pois venham conhec-lo. Podemos 
dar um pulo at l em casa, tomar qualquer 
coisa melhor. Moramos a duas quadras 
daqui.
- No seria um pouco tarde?  tentei 
ainda resistir.
- Vamos meu bem. Um instante s.
Olhei espantado para Isabel. Mais 
uma de suas reaes inesperadas: nunca 
fora chega a crianas, e filhos at ali pelo 
menos, no faziam parte de nossas 
cogitaes.
No tive remdio seno aceitar. E l 
fomos ns, conhecer o filho do casal.
No eram duas quadras, eram 
quatro. Perdemos o chope e no nos 
ofereceu nada de melhor, como ela havia 
sugerido. Nem falaram nisso: mostraram o 
filho dormindo no bero como outro 
qualquer  e era tudo.
Ao fim de alguns minutos, Isabel, 
num alheamento ostensivo, andava pela 
sala, examinando com olhos preguiosos 
cada objeto.
- Gosta?  perguntou a dona da casa.
Eu tambm a observava, inquieto e 
j de sobreaviso. Ela havia parado diante de 
um animalzinho de cermica, naquela 
atitude to minha conhecida: olhava 
fixamente, e seus dedos j se erguiam, 
sensitivos, toda ela uma s emoo entre o 
desejo e o medo. Ao ouvir o dono da casa, 
baixou bruscamente o brao e procurou 
disfarar sua perturbao.
- Lembrana de nossa viagem ao 
norte  informou ele.  Interessante, no 
acha?
-  bonito  e ela voltou a se sentar, 
desapontada por ser surpreendida.
- Se gosta, pode levar:  seu.
- Oh, no, obrigada  Isabel recusou, 
acanhada.
- No pense que  gentileza: minha 
mulher acha que esse cachorro no tem 
nada de bonito.
- Acho  que ele no tem nada de 
cachorro  falei, com um sorriso que 
encerrou o assunto. Ningum achou graa.
Mais alguns minutos, e Isabel se 
levantou:
Na rua confirmei que suspeitava  
ela havia ficado de mau humor.
- Que idia mais idiota, essa visita  
reclamou, culpando certamente a si mesma. 
Mas eu sabia bem a causa do seu 
desapontamento. Exibi-lhe triunfante a 
cermica:
- O seu presente.
Isabel me olhou com espanto. 
Apontou para o edifcio e me intimou com 
energia:
- Voc vai j devolver isso. Que  
que parece fazer uma coisa dessas?
Seus olhos fuzilavam. Era uma 
Isabel que eu no conhecia, autoritria, 
nunca havia me falado naquele tom.
- Mas meu bem  eu procurava em 
vo engolir meu desapontamento: - Voc 
fala como se isso fosse uma ofensa! 
- Voc acha direito tirar uma coisa 
que no  sua?
- No  minha, mas  sua: ele no 
lhe deu de presente/
- Eu recusei.
- E eu aceitei.
- Ento devia Ter falado com ele. 
Eu evitava olh-la, arrasado. 
Procurei tomar coragem:
- Ora, Isabel, voc fala como se 
nunca tivesse feito das suas. No est 
lembrada da colherinha do restaurante?
- Voc mesmo disse que eu no 
devia Ter feito aquilo. Que  que vo dizer 
de ns, quando derem por falta?
- Voc sempre ligou muito para o 
que dizem de ns.
- Por que at hoje ningum disse que 
voc furta.
- Est me chamado de ladro?
Num acesso de raiva, atirei longe a 
cermica, que se espatifou no meio-fio.
Caminhvamos sem dizer palavra. 
Era como se eu voltasse sozinho para casa. 
Isabel seguia a meu lado e at o rudo de 
seus sapatos me soava hostil, como se ele 
nos separassem cada vez mais um do outro.
Ao chegar, abri a porta e ela entrou 
na frente. Fiquei parado na sala. Ela se 
deteve no meio da escada:
- Vai dormir a embaixo? Perguntou, 
como uma dona de casa diante de simples 
questo domstica.
-Vou.
- At amanh.
Resisti  tentao de dizer que no, 
subiria tambm, no podia passar mais uma 
noite longa dela. Tentao de abra-la, 
esquecer tudo que havia passado, subir 
tambm. Mas alguma coisa me dizia que o 
meu lugar era embaixo, que eu era apenas 
uma testemunha, um espectador, o lado 
passivo do seu mistrio.






        Doze




        Por essa ocasio voltei a Minas, 
passei uns dias na casa de meu pai. Ele 
andava doente, e cada vez mais solitrio na 
sua viuvez. Minha me morreu quando 
nasci, e ele acabou se casando com minha 
madrinha, que me criou. Ao perder tambm 
a Segunda mulher, abandonou a carreira de 
advogado do interior, mandou-me estudar 
no Rio e, desgostoso, veio terminar seus 
dias nesta chcara onde hoje termino os 
meus.
        No colhi dele nessa visita um 
conselho, um exemplo, uma sugesto de 
vida. Mais concretamente, colhi apenas o 
seu relgio de bolso, cuja corrente de ouro 
foi a tentao da minha infncia: como as 
abotoaduras, ele o recebera de seu pai e 
certamente o deixaria para mim, no 
houvesse eu me antecipado, levando-o 
comigo por distrao ao partir. 
        Ao meu regresso, nada encontrei de 
promissor. Minha vida se tornara cada vez 
mais difcil. Em casa, Isabel e eu quase no 
nos falvamos. No jornal, j no me 
olhavam com a mesma confiana. Um dia, 
quando em meio ao trabalho acendi um 
cigarro, o Moura Jnior saltou l de sua 
mesa e chamou a ateno dos outros:
- Vejam s com quem estava.
Veio para o meu lado:
- E eu procurando o tempo todo!
Seu tom era agressivo. No me 
sentia com disposio para discutir. 
Continuei escrevendo, fingi que no era 
comigo.
- E ento?
- E ento o qu?  respondi, 
erguendo finalmente a cabea.
- Meu isqueiro  e ele apontou o 
isqueiro sobre o mao de cigarros ao lado 
da mquina.
- Este isqueiro  meu  me limitei a 
afirmar, com segurana, e voltei ao 
trabalho.
- Ainda por cima diz que  dele.
Limitei-me a olh-lo com simulada 
superioridade:
- No chateia, Moura. Voc no tem 
o que fazer? Se quer que seja seu, pois 
ento  seu, pode levar. Est satisfeito? 
Leve logo e me deixe trabalhar.
Ele vacilou:
- Bem, j comprei outro. Seu no  
no. Mas passa a ser: fique com ele para 
voc.
- Muito obrigado  respondi num 
tom irnico, de novo a escrever. 
Ele se afastou afinal, hesitante, 
como na dvida se com aquilo o incidente 
ficava encerrado. Era um tipo de isqueiro 
comum naquele tempo, marca Zippo, de 
nquel, uma chama enorme  funcionava 
bem, embora no valesse grande coisa.
No passou disso, mas me 
aborreceu. No, eu no ficaria muito tempo 
trabalhando naquele lugar. A desconfiana 
cada vez maior, o pessoal j no 
conversando comigo seno assuntos de 
servio, sem a intimidade de antigamente. E 
o que no deviam falar de mim pelas 
costas! Suas intrigas acabariam chegando 
ao ouvido do diretor.
No deixei logo o jornal. Era o 
pretexto que eu tinha para me manter 
afastado de casa. Mesmo porque precisava 
arranjar antes outro emprego, para me 
garantir, talvez numa agncia de 
publicidade. J no terminava o trabalho 
mais cedo s para encontrar Isabel acordada 
como antes. Quando deixava a redao, 
fugia do bar e de bbados como o Durval, 
com seus poemas e suas insinuaes, mas 
ficava andando pelas ruas em horas mortas, 
sem Ter para onde ir, atormentado com o 
meu problema.
Qual era afinal o meu problema? Eu 
mesmo no sabia. Fosse o que fosse, era to 
difcil de resolver como sair de um lugar 
onde nunca entrei. Eu estava cada vez mais 
distante de Isabel. Sozinho, consciente de 
minha fora era capaz de agir, de me 
arriscar. Ao mesmo tempo me sentia frgil 
diante dessa disposio, perdido entre 
sentimentos contraditrios, como um novo 
Raskolnicof. E me via arrastado pela fora 
que descobria em mim, como um ladro se 
o objeto roubado  que o carregasse. 
Mergulhava num mundo de sombras, 
estalar de mveis, respiraes adormecidas, 
ecos e passos, como se cada um desses 
rudos e o prprio silncio fosse uma 
ameaa, a iminncia do perigo. Caminhava 
na rua sentindo que de cada canto olhos 
vigilantes me espreitavam.  noite, 
acordava e comeava no escuro a mexer 
desordenadamente no meus guardados, 
andava sem fazer rudo, apalpava os bolsos 
da roupa, abria e fechava gavetas, ocultava 
sob os mveis objetos como se no fossem 
meus. Uma onda de prazer me percorria o 
corpo ao tocar um livro, o couro da carteira 
de dinheiro, uma caixinha de metal  o sexo 
se excitava como se estivesse tocando o 
corpo de uma mulher. Uma noite no resisti 
e me masturbei acariciando a forma fria  e 
arredondada de um vaso. Depois tomado de 
pavor, metia-me debaixo dos lenis e 
continuava de olhos abertos, sem querer 
dormir, temendo que os inimigos cassem 
sobre mim a qualquer momento. Tornava a 
me levantar, repunha cada coisa no seu 
lugar. Apagava as evidncias, procurando 
aflito algum detalhe que pudesse me trair.
Uma noite a porta se abriu e a 
claridade invadiu o quarto. Dei com a 
silhueta de Isabel, o corpo se destacando 
dentro da camisola, iluminado por trs pela 
luz da sala:
- Que  que voc tem?  ela 
perguntou.
- Nada  respondi, a voz sufocada, e 
voltei a me deitar.
- H vrias noites que voc est 
assim, sem dormir. L de cima ouo voc 
falando.
Eu no sabia eu falava sozinho.
- Falando o qu?
- No sei. No princpio cheguei a 
achar que houvesse algum aqui com voc.
Era uma idia que no tinha me 
ocorrido.
- Ando sem sono, sabe?  tentei 
explicar. E me virei para o canto, evitando 
olh-la. Percebi que ela fechava a porta e se 
deitava a meu lado. Seu corpo encostou-se 
no meu, fui envolvido pelos seus braos.
- Isabel  murmurei, voltando-me 
para ela.
O quarto escurecera de novo, e 
agora as sombras rolavam ao redor de ns.




        Treze




        Tudo ia acontecendo sem muito 
nexo. No havia razo para Isabel e eu 
passarmos todo aquele tempo separados. 
No havia razo para suspeitarem de mim 
no jornal, e muito menos para aparecer de 
vez em quando no meu bolso, sem a menor 
explicao, um objeto que no me 
pertencia. Tudo mal-entendidos. E por que 
Isabel voltou para mim naquela noite, de 
forma to inesperada?
        Passei a nada mais estranhar. Nem 
mesmo o fato de encontrar um dia as 
minhas abotoaduras na gaveta da 
penteadeira de Isabel. Me lembrei daquele 
Domingo, o meu mau humor quando dei 
por falta delas. A explicao de Isabel no 
me convenceu: eu mesmo teria tirado da 
mala, ficaram rolando pelo quarto e a 
empregada acabou jogando na gaveta da 
penteadeira, como fazia com qualquer 
broche, grampo ou alfinete encontrado pela 
casa. Aceitei sem discutir, porque nossa 
vida ia correndo agora sem maiores 
incidentes.
        Isabel tinha voltado a me esperar. 
No jornal eu trabalhava depressa, para 
poder voltar mais cedo. Domingo amos a 
praia e almovamos fora, sem horrio 
certo.  noite dvamos uma chegada at o 
bar de sempre ( o advogado e sua sergipana 
graas a Deus nunca mais apareceram). 
Voltvamos para casa pacificados pela 
madrugada. O jornal fizera de Isabel, por 
extenso, tambm uma notvaga. Raro o dia 
em que nos recolhamos antes das trs, 
quatro horas. Para mim, era quando a noite 
comeava. No voltei a dormir no segundo 
andar: Isabel  que no subia mais.
        Mas eu notava que alguma coisa 
nela parecia intocada. Alguma coisa me 
escapava  havia na sua entrega algo que 
no se entregava, nos seus silncios uma 
voz que meus ouvidos no apreendiam. 
Esta impresso era to forte, que eu a sentia 
sob meus carinhos como se ela no fosse 
minha mulher, mas minha amante. E me 
vinha uma espcie de remorso  eu me 
sentia trado por mim mesmo.
        Como se fosse uma amante  ou 
pior: uma profissional. Seus beijos eram 
simples contato de bocas. Ela no fechava 
os olhos ao beijar. Um dia me mordeu o 
lbio, o que me fez dar um grito de dor. Riu 
e virou-me as costas.
- Por que voc fez isso?  reclamei, 
levando a mo  boca. Estava sangrando.
- Por que sim  respondeu, num tom 
cnico.
O meu plano de deixar o jornal para 
Ter a noite livre talvez se realizasse. 
Passava agora o dia numa agncia de 
publicidade. Com a sada de um redator, fui 
logo promovido. Fiz as contas  ganhava o 
suficiente para viver.
        Ia pensando na rua, uma tarde, no 
que seria a minha vida quando me livrasse 
do jornal. Imaginava a alegria de Isabel. Ao 
chegar  Esplanada do Castelo para tomar o 
nibus, dei com ela a poucos passos, 
conversando com algum. Aproximei-me  
era o Garcia.
- Quanto tempo!  exclamou ele, 
tentando um tom efusivo: - acabo de 
encontrar Isabel, veja s, e logo em seguida 
me aparece voc. Que coincidncia! Como 
vai essa fora?
Isabel me olhava em silncio, na 
expectativa de minha reao. Puxei-a pela 
mo sem uma palavra, para pegarmos o 
nibus que acabava de chegar. Garcia se 
despediu:
- Prazer em v-los. Qualquer dia 
desses apareo.
H quanto tempo estariam ali? No 
nibus, Isabel se sentou junto  janela, 
acenou para ele com naturalidade. L fora o 
imbecil acenou de volta, sorrindo, antes de 
se afastar.
- Posso saber que  que voc estava 
fazendo na cidade?
- Fui ao dentista. Por qu?
- Isabel  eu procurava sufocar a 
minha raiva: - No quero que voc se 
encontre com esse tipo.
Ela me olhou com uma segurana 
que me intimidou:
- Esse tipo  meu primo, voc se 
esquece.
- De sua me.
- D na mesma.
- Seja de quem for. No  
companhia para voc, no merece 
confiana.
Ficamos calados. O nibus 
prosseguia viagem. Isabel olhava para fora 
como se no me ouvisse.
- Soube de uma histrias dele  
inventei.   um cafajeste, aventureiro, 
desonesto. Um ladro.
Esperava que Isabel at me 
descompusesse pela minha audcia de falar 
mal do primo de sua me. Mas nunca o que 
ela me disse, encarando-me com os olhos 
tranqilos:
- Voc  a ltima pessoa desse 
mundo que pode chamar algum de ladro.
No sabia o que dizer nem pensar. 
Dava s suas palavras uma importncia que 
no tinham, no podiam Ter.
- Ele estava com uma gravata minha 
 murmurei ainda, ela no me ouviu.
No falamos mais nada at em casa. 
Assim que chegamos, arranjei um pretexto 
para no jantar e sa de novo.




        Quatorze




        Agora ou nunca, pensava, a 
caminho do jornal  como se sair do 
emprego significasse o fim das minhas 
aflies. Idias soltas me acudiam, como 
traar um plano, dar um golpe, deixar 
todo mundo pasmo. Mas no cheguei a me 
avistar com o diretor, nem a apresentar o 
meu pedido de demisso. Havia ainda 
pouca gente na redao, o Moura Jnior me 
esperava com um recado.
- Estiveram te procurando. Polcia. 
Da DRF.
- Polcia? Por qu?
- Eu  que hei de saber?
Afastei-me. Depois do caso do 
isqueiro, mal conversvamos. Talvez o 
Norberto soubesse soubesse alguma coisa. 
Resolvi indagar dele, mas tive de esperar 
mais de meia hora pela sua chegada. Para 
no dar na vista, fiquei na minha mesa, 
fingindo que trabalhava.
- Norberto  chamei-o assim que o 
vi: - Estiveram aqui me procurando. Gente 
da polcia. Voc entende desse negcio de 
polcia talvez possa ver para mim de que se 
trata. Que quer dizer DRF?
- Delegacia de Furtos e Roubos. 
Estou saindo para l  e o reprter nele 
falou mais alto, farejando um caso: - No 
quer dar um pulo at l comigo?
- Fazer o qu?
- Bem, se te procuraram, esse 
negcio de polcia sempre  bom apurar.
A idia no me agradava. No regime 
em que vivamos, ser jornalista no 
representava nenhuma garantia  ainda 
mais um jornalista annimo feito eu. Mas a 
experincia dele me venceu. Samos juntos 
a caminho da delegacia. Eu ia cheio de 
preocupao, esperando pelo pior.
Norberto foi entrando, mas a mim 
fizeram esperar quase uma hora. Quando 
me dispunha a protestar, amaldioando o 
colega que me deixara ali fora, na sala de 
espera, vieram me buscar. Um guarda abriu 
a porta e me indicou o caminho. Vi uma 
mesa e por trs dela um velho de sorriso 
manso. Ao lado um escrivo j tomando 
notas.
- Faa o favor de sentar.
A polidez do homem me apaziguou.
 - s suas ordens  sorri, respeitoso.
Ele tambm sorria, mas, numa 
brusca transformao, desfechou com 
rispidez:
- Onde  que voc estava s onze 
horas da noite de vinte de maro?
A pergunta me desnorteou. 
Levantei-me, irritado:
- Como hei de saber? J estamos em 
maio!
Uma violenta pancada na nuca me 
fez cair sentado na cadeira. Voltei-me para 
ver o agressor. O velho se dirigiu a ele por 
cima da minha cabea:
- No faa isso, Pitanga. No  
preciso. Ele vai se lembrar. Ele fala.
- fala o qu?  gritei, mais de medo 
que de atrevimento: - Que direito ele tem de 
me bater? Que  que eu fiz? Que esto 
pretendendo com isso?
O escrivo tomava notas.
- Calma, rapaz, calma  falou o 
velho, de novo delicado.  Ningum vai te 
bater onde voc foi na noite de vinte de 
maro. No temos direito de perguntar?
- E eu de no lembrar  retruquei.
- No se lembra de Ter ido a um bar 
da praia?
Eu lamentava o Norberto no 
aparecer para me tirar daquela situao.
-  possvel. Costumo ir l de vez 
em quando.
- Com uma senhorita?
- Minha senhora  corrigi.
O velho se surpreendeu:
- Sua senhora? 
Como se tivesse mudado de idia, 
apertou uma campainha. Fizeram entrar um 
homem gordo, de culos, ar de estrangeiro, 
que me olhava meio ressabiado.
-  esse mesmo?
O recm chegado sacudiu a cabea, 
hesitante:
- Pode ser, mas tambm pode no 
ser. Talvez minha mulher . . . Me parece 
mais magro.
- O velho fez um gesto de 
aborrecimento, consultou o relgio. A um 
sinal seu, deram sada ao homem. Quer era 
aquele indivduo? Agora eu compreendia 
por que demoraram tanto a me atender: 
deviam estar  espera da testemunha. 
Testemunha de qu?
- Bem, voc pode ir. No h nada 
contra voc.
- Antes isso  meu tom era irnico, 
mas, como sempre, no perceberam. Minha 
nuca ainda doa.
- Desculpe o incmodo. Muito 
agradecido pelas informaes.
Que informaes? A amabilidade do 
homem dava para desconfiar. No viesse o 
outro me dar novo cachao no pescoo. 
Antes que eu sasse, o velho me perguntou, 
como quem no quer nada, se em minha 
terra eu havia pertencido a alguma 
agremiao poltica.
- No. Pertenci s  agremiao de 
escoteiros.
Mandaram-me que sasse por outra 
porta at a rua. De passagem, vi um rapaz 
sentado num banco, a boca coberta de 
sangue. Tratei de me afastar a passos 
rpidos sem entender nada, a mente 
confusa, os pensamentos se atropelando. 
Relembrar alguma noite em que estive no 
bar da praia era impossvel. Aquilo no 
terminava ali, ainda ia me trazer 
complicaes. Eu que me cuidasse, devia 
estar sendo vigiado. A lembrana do rapaz 
com os lbios arrebentados me perseguia. 
Estariam me envolvendo em algum caso 
poltico? Pensei em Isabel e comecei a ver 
mais claro. Voltei  redao.
- Dr. Sinval j chegou?
- Entrei no gabinete do diretor, 
expliquei que ia deixar o jornal. Para 
surpresa minha, no fez objeo: concordou 
com uma boa vontade que me deixou 
desconcertado.
- Darei ordem ao caixa para lhe 
pagar hoje mesmo  acrescentou, com 
amabilidade incoerente, pois no faziam 
pagamentos  noite.




Quinze




        Fui direto para casa. Sentada na 
varanda dos fundos, Isabel mordia a ponta 
de um lpis, pensativa. Fazia palavras 
cruzadas num jornal.
- Isabel  chamei-a, emocionado: - 
Fomos descobertos.
Ca sentado na cadeira de vime, a 
seu lado. Enxuguei o suor do rosto  viera 
apressado, quase correndo. As palmas das 
mos tambm estavam suadas. Isabel nem 
me ouviu. Tirou os olhos do jornal, lpis no 
ar:
- Escritor russo com cinco letras  
perguntou a si mesma.
- Tolstoi.
- Cinco letras. Comea com G.
- Gogol.
- Isso mesmo.
Podia tambm ser Gorki, pensei. Ela 
escreveu, depois se voltou para mim.
- Que foi que voc disse?
Levantei-me, fiquei andando pela 
varanda. Comecei a falar como um bbado:
- O fracasso do sexo vem da falta de 
imaginao. O fracasso da imaginao vem 
da falta de poesia. A poesia tinha de vir do 
meu fracasso. No veio. Onde eu estava na 
noite de vinte de maro?
Na minha cabea as lembranas se 
confundiam. Vozes murmuravam segredos, 
conspiravam contra mim. Bocas se abriam 
em sorrisos. O sorriso do velho na polcia, 
do Dr. Sinval, do Garcia, de uma moa que 
eu tinha visto naquela tarde, na rua. Notei 
que Isabel agora me observava, preocupada. 
Dirigi-me a ela, resoluto:
- Voc sabe onde estava s onze 
horas da noite de vinte de maro?
Ela deixou de lado o jornal, ergueu-
se e se aproximou:
- Voc est doente?  perguntou, 
apreensiva.
Estava. Estava doente  s agora eu 
percebia que aquele suor, aquela exaltao, 
aqueles calafrios eram a febre. Recostei-me 
na cadeira, a cabea zonza.
- Devo estar gripado  admiti.
Isabel cuidou de mim durante a 
noite, me deu remdio, me fez dormir. Era 
mais do que gripe: esgotamento nervoso, 
disse o mdico que ela chamou pela manh. 
Muita preocupao, trabalhava demais, no 
dormia, fumava sem parar, precisava de 
repouso.
- Deram queixa  polcia. J sabem 
de tudo  eu dizia a Isabel, nos dias que se 
seguiram: Fui chamado l.
- Sei. Agora descanse. Procure 
dormir um pouco. 
Ela no acreditava. Tratava-me 
como criana. Uma vez me passou um pito 
por que joguei fora o remdio. Outra vez se 
zangou por que me encontrou fora da cama.
- Mas eu j estou bom!  protestei.
- O mdico diz que ainda no. Por 
que voc teima? Basta olhar para a sua 
cara!
Ao terceiro dia no suportei mais. 
Vesti a roupa sem que ela visse, fiz a barba 
e ganhei a rua. Era mesmo um dia de 
convalescena, vento sacudindo as rvores, 
sol frio num cu opaco, mar de um verde 
escuro. Lembrei-me do dia em que vim 
quela casa pela primeira vez. Como 
parecia distante! E como eu era diferente! 
No podia responsabilizar ningum pelo 
meu destino. nico responsvel, eu era 
tambm o nico que podia mud-lo. E ia 
mudar. Sentia-me feliz e completamente 
so, para mim nunca estivera doente.
Um cozinho peludo surgiu num 
porto e comeou a me seguir. Prolonguei o 
passeio s para ver at onde ele me 
acompanharia. J perto de casa, tomei-o nos 
braos, entrei.
- Que eu trouxe para voc  falei, ao 
ver Isabel.
- Meu Deus, onde  que voc foi? 
De onde tirou isso?
- No tirei: ele me seguiu.
Vi logo que ela no havia gostado 
do presente, pois o enxotou para a rua.
- Voc no devia Ter sado.
Procurei convenc-la de que era 
inadmissvel eu ficar preso em casa o dia 
todo, sentindo-me to bem. Assim,  tarde 
tornei a sair, fui ao jornal receber meu 
ordenado. Trataram-me com a maior 
reserva. Ao conferir o dinheiro, junto  
caixa, notei um excesso de 500 cruzeiros. 
Idiotas! Queriam me experimentar.
- Olha aqui: voc me deu quinhentos 
cruzeiros a mais.
Sa, enojado com aquele recurso 
grosseiro. Lembrava-me do dia em que 
havia deixado dinheiro no bolso da roupa, 
por sugesto de Dona Brgida, para 
experimentar a empregada.
Nem me despedi dos colegas na 
redao. Em casa, contei pela primeira vez 
a Isabel que tinha deixado o jornal. Ela no 
se alegrou tanto quanto eu esperava.


        Dezesseis




        Dois dias depois o Garcia apareceu 
em nossa casa. Estava de partida para a 
Europa, vinha se despedir.
- J vai tarde  fui falando: - Boa 
viagem.
- Irnico, hein?  gracejou ele, 
fazendo-se de ntimo.
-  a me.
Ouvi Isabel cochichar-lhe ao 
ouvido:
-  melhor no mexer com ele no, 
Garcia.
 melhor mesmo  pensei, furioso, e 
fui para o quarto. S no tinha ido antes 
porque conclu que deix-los a ss seria 
pior.
Isabel foi me procurar algum tempo 
depois. Me encontrou esticado na cama, 
olhando o teto e fumando.
- Convido o Garcia para jantar?
- Convida. Convida para jantar, para 
dormir, para viver aqui. Se  o que voc 
quer.
- No compreendo por que voc tem 
raiva dele. Que mal ele te fez?
Saltei da cama e fiquei andando de 
um lado para o outro, exaltado:
- Raiva? Quem  que tem raiva? 
Ora, voc acha que vou perder tempo em 
Ter raiva de um tipo desses?
- Cime, ento.
Tentei uma gargalhada de sarcasmo:
- Essa  muito boa: cime! Voc no 
me conhece, Isabel. 
Tinha parado em frente dela, as 
mos nos bolsos, ainda a rir forado. Ela me 
ajeitou a gravata, cujo lao eu havia 
afrouxado:
- Voc no sente cime de mim?
Vacilei, quase disse que sentia. Seus 
olhos esperavam, sem se desviar dos meus. 
A mo passou da gravata para o ombro e 
ela me abraou, roando o corpo em mim. 
Mais uma vez Isabel me vencia.
- Que pergunta idiota  tentei um 
resto de raiva, j inteiramente rendido. Ela 
me beijava a ponta do nariz, quebrando a 
minha compostura. Abracei-a e nos 
beijamos.
- Ento desa para jantar, seu coisa  
Isabel disse afinal, segurando-me o rosto 
com as mos: - No demore no que ele 
pode reparar.
Havia-me esquecido do Garcia. 
Pode reparar! De novo me indignei:
- No quero jantar.
Ela no me ouviu. Desceu logo, para 
fazer companhia  visita. Continuei no 
quarto, emburrado. Eu era um idiota  
pensei depois, sentindo fome. Afinal de 
contas a casa era minha. O melhor era 
enfrent-lo, aturar um pouco a sua presena 
desfrutvel.
Desci. Estavam  mesa, um em 
frente ao outro. Tive a impresso de que 
interromperam a conversa to logo entrei. 
Talvez j fosse desconfiar demais. Sentei-
me. Era bvio que minha presena os 
constrangia.
- E ento? Quando  que embarca?  
perguntei.
Isabel, aliviada, voltou-se para ele:
- Voc vai mesmo para a Europa?
Garcia largou o garfo:
- Vou. Quem uma vez respirou o ar 
da Itlia, acaba um dia voltando l.  
segurou de novo o garfo, espetando um 
legume: - Mas desta vez vou a negcios.
Eu podia imaginar que tipo de 
negcios. Ele no continuou: foi 
interrompido pela campainha da rua.
- Quem ser?
Fui abrir. Era o investigador.




        Dezessete




- Que  que h desta vez?  
perguntei. Procurava aparentar calma, mas 
tremia de medo. Me lembrei do rapaz na 
polcia, a boca ensangentada.
O homem no se deu ao trabalho de 
responder. Foi  entrando sem cerimnia. O 
guarda que acompanhava postou-se na 
porta. Garcia olhava tudo l da mesa, 
surpreso.
- Uma pequena busca. Se o senhor 
no se incomoda.
Isabel tambm se conservara  mesa, 
sem se mexer. O nosso convidado levantou-
se, resolveu intervir:
- De que se trata, posso saber? O 
senhor falou em busca? A propsito de 
qu?
O investigador encarou Garcia com 
ar entediado:
- Polcia, moo. Olhe aqui  e 
mostrou uma carteira que logo tornou a 
guardar. Garcia se voltou para mim:
- Que vem a ser isso?
- Roubaram a bolsa de uma mulher 
num bar aqui perto  cochichei, nervoso.  
outro dia fui chamado . . .Pensam que 
Isabel . . .
- Mas que significa isso?  repetiu 
ele para o policial, j em tom de protesto: - 
o senhor no pode dar busca sem mandato 
judicial. Nem invadir domiclio depois das 
seis horas da tarde, sob nenhum pretexto. 
Sou advogado, fique sabendo, conheo a 
lei.
Desta nem eu sabia. O homem 
afastou-o com displicncia e se plantou 
diante de mim, mos na cintura, palet 
aberto, deixando  mostra o revolver. Seu 
sorriso era apenas uma crispao de lbios:
- Como sabe que era uma bolsa?
- Me falaram na polcia. Fui 
chamado l  expliquei, aterrado com o 
lapso cometido.
- Est mais lembrado agora?  ele 
balanou o corpo sobre as pernas.
De sbito reconheci: foi quem me 
deu a pancada na nuca, diante do velho, na 
delegacia.
-  o Pitanga  falei para mim 
mesmo, me sentindo perdido.
Deixando-me para trs, ele j subia 
a escada em direo ao quarto.
- No pode fazer uma coisa dessas! 
 protestava o Garcia.
Corri para Isabel:
- Estamos perdidos! Que  que voc 
vai fazer?
Ela me olhou como se no ouvisse. 
Em pouco o investigador ressurgiu, veio 
descendo a escada. Isabel se levantou, 
resoluta.
- No faa isso, Isabel!  gritei: - 
No diga nada!
Tentei ret-la pelo brao. Garcia 
deixara de intervir e olhava tudo 
pateticamente, garfo ainda na mo. Eu me 
sentia no ltimo ato de uma pea de teatro. 
O homem de novo diante de ns:
- No tenho tempo a perder.  
melhor evitar que eu me aborrea. Onde  
que est?
Um instante de silncio. Isabel 
respirou fundo e me ordenou:
- V buscar.
Estarrecido, no saiu do lugar:
- Buscar o qu  tentei disfarar, e 
falei baixinho: - Voc est louca, Isabel?
- V buscar  repetiu ela, mais alto, 
fechando os olhos, como se desse tudo por 
perdido. O investigador mostrou os dentes:
- Assim  que eu gosto. Nada de 
gracinhas, hein?
- O guarda acompanhando tudo l da 
porta. Subi a escada devagar, apoiado no 
corrimo. Os degraus fugiram sob meus 
ps. Tinha a impresso que formavam um 
jogo de sombra e luz, apenas desenhados, 
no existiam. No quarto encontrei tudo 
revirado. Apaguei a luz que o investigador 
deixara acesa e ca na cama. Relaxei o 
corpo, sentindo o suor no rosto, no pescoo. 
Os msculos da face tremiam. Olhavam ao 
redor, mal distinguindo os mveis, o 
armrio escancarado, gavetas abertas, peas 
de roupa pelo cho. No compreendia nada. 
Ouvi a voz de Isabel como uma nuvem no 
quarto. A voz dela aos meus ouvidos, seu 
rosto inclinando para me olhar, numa noite 
qualquer, ela em meus braos. Tentava 
ordenar os pensamentos, traar um plano. 
Tudo perdido, era tarde, nem que eu 
matasse aquele homem. Matar, matar  
repetia idia fixa e sem sentido, pois 
restaria o guarda, talvez houvesse outro l 
fora, e eu nem tinha revlver, nenhuma 
arma. L embaixo a voz impaciente do 
investigador. Isabel me chamando. Me vi 
plantado no meio do quarto, os 
pensamentos se debatendo na cabea. V 
buscar  ela ordenara. Estendi o brao entre 
o armrio e a parede, tateei ansiosamente, 
procurando a bolsa. Era o nico lugar em 
que poderia estar, todos os outros haviam 
sido vasculhados. Meus dedos finalmente a 
encontraram. Retirei-a, apertando-a contra o 
peito, sem saber o que fazer. A voz do 
homem de novo, passos na escada. Eu 
corria para l e para c, procurava um 
esconderijo, passos na escada, girava no 
escuro em torno do mesmo ponto, a voz do 
homem, minhas mos afundando no couro 
da bolsa  a luz se acendeu:
- Ento? Achou, ahn?
Fiquei ofuscado com a repentina 
claridade. Fechei os olhos e recuei. Isabel 
olhava da porta. O homem avanou sem 
que eu fizesse o menor movimento:
- Me d aqui. Deixa ver.
Estendi-lhe a bolsa num gesto 
frouxo. Se ele tivesse mandado que eu 
casse de quatro, teria obedecido.
O investigador se sentou na cama, 
descontrado, como se cumprisse um ato de 
rotina. Abriu a bolsa e examinou o 
contedo : uma carteira de identidade, uma 
carta, notas de venda, nqueis, uma 
cigarreira, um isqueiro de ouro.
- Olha s  exclamou, assombrado. 
E retirou da bolsa, dependurada nos dedos, 
uma pulseira de brilhantes. Tornou a 
guardar tudo, levantou-se: - Quanto ao 
dinheiro, mais tarde se apura.
Voltou-se para Isabel. Interpus-me 
de um salto:
- Ela no tem nada com isso. Nem 
sabia. A culpa  toda minha.
Ele no me deu ateno, dirigindo-
se a ela:
- A senhora vai Ter de aparecer para 
depor. Fica avisada desde j.
E me tomou pelo brao:
- Vamos. 


Dezoito




        Muita coisa de que eu mal 
suspeitava contribuiu para me condenar. 
At o Dr. Sinval deps contra mim. 
Acusou-me de Ter recebido publicidade 
sem autorizao e ficado com o dinheiro. O 
nico anncio de que me lembrava era o de 
Isabel, que me levou para sua casa. E ela 
nunca pagou.
        Houve mais, e pior. Caras 
desconhecidas desfilavam suas queixas. 
Isabel tambm compareceu:
- Ele tinha de fato essa mania  
deps, com o intuito de conseguir um 
atenuante.
Meu pai ficou sabendo pelos jornais, 
veio de Barbacena s pressas, e pouco 
tempo depois do julgamento encerrado 
morria, de desgosto ou de velhice.
Recebi na priso apenas duas visitas 
de Isabel, uma do Garcia e outra dos dois 
juntos. Na primeira, Isabel me levou 
cigarros. Na Segunda, me contou que o 
Garcia estava mesmo de partida para a 
Europa, dependendo de arranjar uma 
secretria. A atitude dele naquela noite, 
tomando minha defesa e se arriscando a ser 
preso tambm  motivo na certa no faltaria 
 arrefeceu um pouco a antipatia que me 
inspirava.
A idia me acudiu de repente:
- De quanto tempo  essa viagem?
- Seis meses, mais ou menos, 
segundo ele me disse.
- Por que voc no vai?
- Vai aonde?
- Vai com ele.
Ela me olhou surpreendida, mas 
seus olhos brilhavam:
- Que idia?
- Como secretria dele,  lgico. 
Voc se distrai um pouco, e quando voltar . 
. . 
Ela no podia acreditar que eu 
falasse a srio:
- Mas voc sempre disse que ele no 
 uma boa companhia, que no confia nele.
- Confio em voc.
Trocamos um beijo entre as grades.
- No quero ver voc triste  minha 
espera.
Poucos dias depois era o Garcia que 
vinha me visitar. Agradecia a sugesto, 
sensibilizado com a tamanha prova de 
confiana:
- Mas no sei se devo . . .
- Deve, ora essa.
Assim ficou combinado. Voltaram 
um dia para se despedir:
- Vamos lhe escrever sempre  
Isabel enxugou uma lgrima.
Trocamos um ltimo beijo, o mais 
longo.
Iam viajar de navio, como era 
comum na poca. Os negcios dele 
comeavam a bordo. No dia da partida, 
imaginei o movimento no cais, o navio, a 
afobao dos dois, as malas. A emoo da 
largada, as distraes da viagem, as guas 
se perdendo longe, no horizonte. Nesse dia, 
cheguei a sentir algum cime, vontade de ir 
tambm para a Europa.
Cime sem propsito, como todos 
os sentimentos que Isabel me inspirou. 
Cansada do Garcia, ela no embarcou para 
a Europa; acabou vendendo a casa e se 
mudou, indo morar no sei onde nem com 
quem.
O prprio Garcia no chegou a 
embarcar. Mas tantas fez, que mais tarde 
conseguiu uma passagem area, voou para 
os Estados Unidos, e por l foi ficando. De 
vez em quando ele me mandava um carto, 
falando nos negcios que fazia: O que vale 
na vida  o dinheiro. E eles aqui sabem 
ganhar dinheiro. No se habilita, Dimas?
No, no me habilitei. O mundo j 
tinha muitos Garcias. Preferi voltar para 
Minas, assim que comutaram a minha pena. 
Afinal, pelo menos juridicamente, fui 
considerado um bom ladro.




        Dezenove




        Hoje, depois de tanto tempo, volto a 
me indagar com quem estaria a verdade: 
comigo ou com Isabel. Em certos 
momentos, sou levado a acreditar que no 
estive nem com um nem com outro  ou 
melhor, com ambos: naquele plano entre a 
realidade e a imaginao, em que se unem 
os contrrios e a verdade passa a depender 
do ponto de vista em que nos colocamos.
        Os comentrios sobre ela que se 
faziam na redao, por exemplo, talvez no 
passassem de irreverentes brincadeiras, 
comum entre companheiros de jornal. Seus 
encontros com Garcia podiam 
perfeitamente ser fortuitos r no haver nada 
entre eles. E os incidentes envolvendo 
canetas, objetos de uso cotidiano, que 
eventualmente trocaram de mos, nada 
levaram a concluir em relao ao 
envolvimento dela. Aquele que ocasionou a 
minha priso, mais grave, continua 
inexplicvel: havia realmente uma bolsa, 
contendo objetos de valor, escondida atrs 
de um armrio em nossa casa. Que a 
colocou ali? O Garcia, talvez? Ele estava 
presente no dia em que foi encontrada pela 
polcia.
        Como j disse, muita coisa me 
aconteceu depois de Isabel. Eu teria outras 
passagens de minha vida a recordar, no 
fosse o fato recente que veio suscitar estas 
lembranas.
        Na ltima vez que estive no Rio, 
entrei numa joalheria de Copacabana, em 
cuja porta estava escrito Compra-se ouro. 
Eu no pretendia seno avaliar o relgio de 
ouro que foi do meu pai, e que levara 
comigo com a inteno de vender, por no 
me ser de nenhuma serventia: hoje em dia 
pouco se me d saber as horas, por isso no 
uso relgio, se usasse, no haveria de ser 
um anacrnico modelo de bolso.
        No cheguei sequer a exibi-lo ao 
joalheiro. Olhando casualmente para a 
vitrine, vi, atravs de minha figura refletida 
no vidro, a de algum l fora, na rua. A 
minha era de um homem de cabelos 
brancos, j de idade, mas ainda 
desempenado, a da rua era de uma mulher 
vistosa, aparentando no mais que uns 
quarenta anos, o corpo bem definido dentro 
de um vestido de corte elegante. Estava 
acompanhada de um homem calvo, de 
meia-idade, ar esportivo e saudvel, com 
um blazer azul-marinho e apontava uma 
jia na vitrine e mostrava num sorriso os 
dentes brancos e perfeitos. Os cabelos 
louros, arranjados em cuidadoso penteado, 
acrescentavam um toque de nobreza ao seu 
porte hierrquico, imponente.
        Era a minha mulher.
        Uma mulher idosa, aparentando pelo 
menos uns sessenta anos, o corpo informe 
dentro de um vestido mal ajambrado. 
Estava acompanhada de um homem calvo, 
de palet largo e usado, camiseta encardida. 
Naquele instante ela apontava uma jia na 
vitrine e mostrava num sorriso os dentes 
escuros de nicotina. Os cabelos grisalhos, 
com mancha de tintura e em desalinho, 
acrescentavam um toque de vulgaridade  
sua aparncia humilde, decadente.
        Era minha mulher.
        Minha mulher, porque nunca 
chegamos a legalizar nossa separao  foi 
tudo que me ocorreu no momento. Recuei, 
tentando ser visto, mas Isabel logo se 
afastava com seu companheiro.
        Qual das duas vises foi a 
verdadeira, qual nasceu da minha 
imaginao? De tanto pensar, acabei no 
sabendo distinguir uma da outra: entre 
ambas impe-se uma terceira, sem 
contornos definidos, envolvida para sempre 
em mistrio.
        O que me leva de volta ao enigma
de Capitu. Vamos a ele.
